OS VERDADEIROS DISCÍPULOS DE JESUS CRISTO

Grandes multidões o acompanhavam, e ele, voltando-se, lhes disse: Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo. Lucas 14:25-27 ARA

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Em seu curto ministério terreno, Jesus Cristo, com seus ensinamentos e milagres, atraiu multidões. Hoje, o que conhecemos como cristianismo já é composto de 2,3 bilhões de adeptos, divididos em três principais grupos: católicos romanos, gregos ortodoxos e protestantes. Como naquele tempo, hoje grandes massas professam a fé em Jesus Cristo e se consideram seus discípulos. Assim, o trecho que se inicia em Lucas 14:25, pode ser facilmente compreendido pela igreja atual.

Grandes multidões o acompanhavam,… Lucas 14:25a

Esse relato de Lucas nos apresenta uma situação curiosa: no meio de seu Evangelho, insere esse incidente em que Jesus caminhava com seus discípulos e decide parar. Era um momento de aparente prosperidade para seu ministério, cada vez mais pessoas o seguiam para observar seus milagres, sermões e até para fazer parte do “movimento”, afinal de contas Ele poderia ser o Messias esperado. Números normalmente são encarados como um bom sinal aos olhos humanos. Jesus, porém, enxerga as grandes multidões como um sinal de alerta e havia chegado a hora de tratar essa questão. Então ele, voltando-se, lhes disse: Lucas 14:25b.

Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Lucas 14:26

As palavras de Jesus são fortes e chegam à multidão como espada cortante. Mas antes de tentar absorvê-las, uma nota se faz importante: na grande maioria das traduções da Bíblia para o português, os tradutores fizeram a opção por traduzir a palavra (misei, no grego) como “aborrece”. Talvez esse seja um dos casos onde resolveram não usar “termos que assumiam conotação negativa”, como é dito na abertura de algumas versões brasileiras. A palavra utilizada por Jesus seria mais bem traduzida como “odeia”. Os próprios tradutores assim o fazem em vários outros trechos para o mesmo verbo, na mesma conjugação. Um exemplo seria em João 15:23 que diz: “Quem me odeia odeia também a meu Pai”.

Outro argumento que fortalece a tese é o da etimologia (origem) da palavra misoginia, um termo que está bastante na moda. Em sua forma mais literal significaria “ódio às mulheres”, já na voz popular seria o que ficou conhecido como machismo. Portanto, o uso da palavra “odiar” se faz necessário ainda que dificulte o trabalho exegético. As palavras se tornam ainda mais fortes e ainda mais cortantes. E sim, Jesus fala nesses termos (mais sobre isso será tratado adiante).

A razão para trabalhar com mais detalhes essa fala de Jesus é para que o cristão, ao estudar as palavras das Escrituras, não olhe para o texto apenas como se tivesse que aprender uma lição direta para sua vida, ele deve buscar ser pouco a pouco transformado à semelhança de seu Senhor, Ele é o alvo da santificação.

Por isso, deve-se observar não apenas o que está sendo dito, mas como e porque está sendo dito. Jesus encarnou se fazendo homem. Ele é o homem perfeito e, portanto, fala perfeitamente como um homem. Todo homem deveria aprender a falar de forma masculina como Jesus o faz. Ele fala o que precisa ser dito, na hora adequada e com a entonação perfeita, ainda que cause desconforto na audiência. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? Mateus 23:33. Frases como essa não tranquilizam ninguém.

Talvez a solução mais fácil para entendermos o versículo 26 seria assumir que Jesus queria dizer “amar menos”, como acontece em situação semelhante no Evangelho de Mateus (Mt 10:37). Em última instância, a conclusão não estaria errada. Mas, por trás da linguagem que Jesus usa, muitas outras riquezas podem ser extraídas, de forma que chegaremos ao mesmo destino seguindo um caminho diferente; o caminho do próprio texto.

O uso dessa expressão forte, não poderia ser entendido como literal. O Senhor quando perguntado sobre o principal mandamento respondeu: “…O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” Marcos 12:29-31. O cristão deve amar o seu próximo, ainda mais seus familiares.

Jesus usou uma figura de linguagem, uma hipérbole, ou seja, um exagero para poder frisar a informação transmitida. Assim, o uso da palavra em questão demonstra a preocupação de Jesus em fazer que seu recado fosse captado. Falando dessa forma, ninguém poderia dizer que não entendeu, ainda mais quando o assunto é de tamanha importância. Se alguém vem a mim e não aborrece (odeia) a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Lucas 14:26. O verdadeiro discipulado é que está em jogo.

Outro ponto a se observar seria o fato de que pessoas podem ir até Jesus, porém podem estar indo pelos motivos errados. Ninguém deveria ir até Jesus como se Ele fosse um cartão de auxílios sociais, para receber benefícios sem precisar assumir responsabilidades. Quem vai à Jesus deve estar disposto a odiar todo e qualquer obstáculo que atente contra o seu Senhor, inclusive a sua própria vida. E, para Paulo, essa parece ser a parte mais difícil. Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado. 1 Coríntios 9:25-27.

E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo. Lucas 14:27

O Apóstolo Paulo e o Senhor Jesus, não estão falando sobre a possibilidade de perder a salvação e nem mesmo sobre como receber a salvação, mas sim sobre a realidade da vida daquele que decide seguir a Jesus. Quando o Senhor dá um mandamento aos seus discípulos, o faz esperando obediência, mas reconhecendo a incapacidade deles. De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Gálatas 3:24. A Lei de Deus revela a nosso pecado e incapacidade, mas ao mesmo tempo, aponta para aquele que a cumpriu perfeitamente. Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Mateus 5:17. Pela fé em Cristo, nossa justiça excede em muito à justiça dos escribas e fariseus (Mt 5:20), pois Cristo se torna a nossa justiça.

Ainda assim, o verdadeiro discípulo anseia por obedecer ao seu Senhor e geme de dor, quando se depara com sua insuficiência e fraqueza. A vida cristã é uma permanente batalha da mente contra os membros do corpo (Rm7:23), do Espírito contra a carne (Gl 5:17). O desejo de obediência se torna a cruz a ser carregada diariamente. Uma cruz de que o corpo pecaminoso se empenhará para se livrar. Mas, o cristão persiste, ele não cairá facilmente. Ele resiste golpe após golpe. Então um de seus joelhos fraqueja, ele percebe. A atenção no adversário é desviada para o problema e sua guarda baixa.

Vez ou outra, o cristão vai ao chão e de lá clama: “Eu não consigo. Eu não mereço. Eu não posso ser seu discípulo!” Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Romanos 7:24. O príncipe dos pregadores, Charles H. Spurgeon chama todo cristão de “guerreiro cansado”. Parafraseando o pastor americano John MacArthur, essa dor é um dos melhores sinais para o abatido reconhecer sua salvação, ele é um verdadeiro discípulo. O seguidor de Jesus que não sofre, não é diferente dos fariseus religiosos. O orgulho precisa ser derrotado vez após vez. E o Deus Pai sabe bem como tratar seus filhos, porque o Senhor repreende a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem. Provérbios 3:12.

O Senhor Jesus mais a diante em seu discurso afirma que assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo. Lucas 14:33. A única forma de alguém renunciar a tudo que tem, a tudo que é, a tudo que ama, é morrendo. Aquele que tem fé em Jesus Cristo, pela fé está crucificado com Ele e com Ele morreu.

Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Mateus 28:19. O batismo nas águas, realizado em nome da Santa Trindade, ordenado por Jesus a todo discípulo (Mt 28:19), não é apenas uma profissão pública de sua fé, mas um sinal que aponta para essa realidade espiritual. É um evento na vida do cristão que aponta para um evento na vida de Cristo, do qual se torna participante apenas pela fé. Assim, apenas o discípulo que passou pela morte estará apto e desejará ser ensinado a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado (Mt 28:20). Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo.1 Coríntios 15:57

Andrey Consalter